CRTÍICA A POLÍTICA NÃO DESAPARECE NO POÉTICO por Ruy Filho
RUY FILHO E ANTRO POSITIVO
OUT 03, 2026
PUFF de Alice Ripoll e Hiltinho Fantástico
Lisboa
Alguém ou algo? O que vemos quando olhamos para um/uma performer, um/uma dançarino/a, um ator, uma atriz? A quem é permitido ser alguém? Quando alguém é condicionado a ser algo? Quem é compreendido como sendo ambos? E será isso uma qualidade? Essas questões me perseguem desde que participei de um encontro com Peter Brook, há mais de duas décadas. De lá para cá, tornaram-se cada dia mais explícitas, paradigmáticas e necessárias.
Parto dessas inquietações porque, em Puff, de Alice Ripoll e Hiltinho Fantástico, o primeiro impacto é o que permanece após a apresentação: o performer. Por ser um trabalho solo, isso pode parecer redundante dizê-lo. Entretanto, não se trata de perceber apenas o virtuosismo de Hiltinho. É preciso assistir ao espetáculo por uma lente diferente: pelo artista que nele se apresenta e de como faz a dança possível de ser maior. O meu impacto, portanto, deu-se especialmente sobre o alguém.
Alguns corpos muitas vezes são tratados como um meio de representação, como se não lhes fosse possível existir por si, apenas como dispositivos de algo que lhes classifica ou justifica. Vemos isso ocorrer até nas resenhas elogiosas. Hiltinho é resenhado como um homem bêbado, como instrumento para a manifestação de entidades, como representante de um movimento da dança urbana. Tudo isso está ali, de certa forma. Mas é diferente de tê-lo como um personagem ficcional ou cultural. A naturalidade de o definir dispositivamente é parte do vício silencioso de como, mesmo na ambiência da arte, ainda se compreende o performer como algo-alguém. Prioritariamente, o algo que serve para dar a ver uma cultura por vezes percebida no seu exotismo mercantil.
Interessa-me olhar o performer por outros caminhos, encontrar nele a singularidade que lhe faz um artista arrebatador. Sim, por vezes temos de voltar aos adjetivos. Quase sempre a tocar o chão apenas com os dedos dos pés, Hiltinho parece superar o próprio corpo e flutuar entre movimentos nada simples. Há uma sutileza contraposta aos braços carregados e estendidos, a respiração crescente, enquanto torna a dança um enigma técnico. Fiquei alguns momentos a assistir a seus pés e, confesso, ainda me perco na capacidade de como precisa de tão pouco para se apoiar, mover-se e saltar.
O primeiro momento do espetáculo é composto com pistas mais reconhecíveis: o samba, a capoeira, talvez o frevo?, o passinho, alguns outros do hip-hop e das danças urbanas. Hiltinho os dança sem os reduzir. Torna-os vocabulários físicos reorganizados por uma lógica coreográfica. Por isso, são o que são e também linguagem de uma narrativa a um só tempo histórico e cultural. É já aqui que as coisas se aprofundam. Hiltinho não dança a dança, ele a manifesta como extensão do seu corpo. A todo momento, ela parece surgir, desvelar-se, inventar-se e se apresentar.
Não se trata, portanto, de assistir a uma apresentação de passinho. Hiltinho não está na rua. A condição é outra e o interesse também. Ao deslocar-se para um espaço voltado a espetáculos, em seus sentidos mais tradicionais, Puff não espetaculariza a rua por uma apropriação ingênua e simples, feito um gesto de entrega ao consumo turístico da cultura. Faz da ancestralidade, da herança, das tradições um discurso inteligente em que disfarça o político na experiência da arte. Por isso, não se deve esperar uma apresentação do estilo em que Hiltinho é mestre. O que o espetáculo oferece é o deslocamento sensível de nossa ausência em direção ao reconhecimento político dos corpos ausentes também nas artes.
O fantástico do desaparecimento ou do sopro, a fantasmagoria sugerida pelo título não precisa de personagens, de tipos. Apenas do sujeito, do homem, do performer. É Hiltinho, antes da dança, quem define a dimensão da linguagem. Muito tem sido abordado sobre como a linguagem e a arte estabelecerem qualidades de presença aos sujeitos. No entanto, essa perspectiva, ainda que verdadeira, quando compreendida somente por esse viés, pode reduzir a dimensão poética dos artistas. E Hiltinho cabe nesses raros sujeitos-artistas: é tanto ele mesmo, quando dança, que a arte aparece (não digo “parece”) feito um sopro incontrolável que encontra seus múltiplos percursos em um único corpo.
Retomo alguns pontos do ensaio que escrevi (já me desculpando pela
autocitação) para o livro comemorativo do JUNTA Festival | Dança e Contemporaneidade:
(…) quando dança quem dança? se não é pelo gesto, mas pela ideia de um existir específico, dançar significa compreender o sujeito por sua dimensão de ação. (…) dança-se, a partir daqui, quando um corpo possui uma qualidade de presença capaz de interferir e atuar sobre a realidade, de modo a explicitamente desafiá-la. (…) Mesmo alguém, único e sozinho em cena, dança o alargamento do contexto no qual fora inserido.
Insisto: Hiltinho é radicalmente Hiltinho. Tudo mais é projeção e corre o risco de limitá-lo como dispositivo. Já está na hora de fugirmos dessa armadilha retórica. Completam os pés, movimentos circulares e elípticos, numa espécie de espiral que desenha primeiro os músculos, depois os gestos, então os traços coreográficos, o percurso espacial. Ou seja, do íntimo ao público, do próprio ao mundo. Não em uma trajetória unidirecional linear: é dele para além dele, e de além dele para ele. Essas dinâmicas são sustentadas pela sutileza da iluminação de Tomás Ribas, em variações de brancos quentes e frios, sempre a lhe rodear, a criar ambiências específicas que guardam uma narrativa a ser decifrada. A luz organiza o contexto simbólico sem representar e definir significados, diferenciando a coreografia em ambiências, em instantes, enquanto Hiltinho se reinventa mais e mais.
A combinação entre luz e presença sustenta o argumento que quero aqui trazer sobre a criação de Alice Ripoll estar na maximização do gesto coreográfico, que pode ser encontrado em outros de seus trabalhos. Seu interesse parece ser provocar o público a uma experienciação perceptiva, móvel, elíptica, a partir de aparecimentos, desaparecimentos e reaparecimentos complementares de códigos, como se o público estivesse imerso no interior do gesto compositivo.
A partir da experienciação cognitiva da iluminação, que podemos compreender como coreográfica, Alice Ripoll convoca, em Puff, o público a presentificar a dança. Diferencia-o, assim, de um espectador participativo: um espectador mais próximo ao conceito proposto por Hélio Oiticica, em que olhar à obra significa tanto quanto tornar-se obra e dar a ela a concretude de sua existência no específico do momento em que se encontram. Presentificar.
Alice Ripoll desloca a experiência do público por outros gestos que se somam, são suas interferências que instituem no gesto coreográfico e na presença do performer uma qualidade conceitual diferenciadora. O fio de tinta dourado (ou cobre) a escorrer pelas costas do performer; a tinta preta que se revela pouco a pouco pelo corpo; a tinta prateada, escura, a escorrer regurgitada pela boca; o suor que desenha novos percursos no linóleo, marcando-o, secando-se, disfarçando-se. Nos rastros dos líquidos, pingos, respingos, marcas, manchas, o chão faz-se outro, torna-se a sombra poética do performer, sua transmutação, assume-o como herança e ancestralidade ao futuro. No corpo que se marca em ouro, no negro que se amplia em negro, no regurgitar que finaliza a antropofagia, no suor que brilha, há pistas da história e da cultura em que passado e presente são os mesmos estados. O corpo pesa. Vai ao chão. Encontra-se ou funde-se. Assim, voltamos a Hiltinho, ao performer, ao coreográfico, ao pensado, aos códigos, aos signos e a Alice Ripoll. Essa é a circularidade que mais me interessou: a partir desses alguéns, e não de algo, quem nos tornamos, ao fim? O que escolhemos presentificar como arte enquanto assistimos? A qualidade sensível que nos provoca Puff não se esgota com respostas ou com o blecaute. Avisa-nos ser o espetáculo nada menos do que o existir é um exercício poético ininterrupto e intraduzível de reação política. A longa parceria com Alice Ripoll amplia Hiltinho para não ser algo, não só alguém, nem um mero algo-alguém.
Hiltinho dança a potência de ser alguém-alguém, em que é impossível dissociarmos o sujeito e a arte. As hierarquias da linguagem deixam de possuir qualquer importância diante do impacto provocado pelo que se entrega.
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Ruy Filho é crítico de artes performativas, editor da Antro Positivo Plataforma
de Arte, curador do Outros Festival de Arte, Investigador da Universidade de
Lisboa – Centro de Teatro e Colunista do jornal Público (Portugal).
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