“Os sem…” / “Les sans…”

Ali K. Ouedraogo (Burkina Faso) / Freddy Sabimbona (Burundi)

Inspirada em Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, “Les Sans…” (“Os sem…”) revisita as feridas e esperanças das lutas pós-coloniais africanas, acompanhando o reencontro de dois antigos camaradas: Franck, ainda movido pelo ideal revolucionário, e Tibo, agora integrado ao sistema que antes combatiam. Entre eles, ergue-se um confronto de ideias, memórias e destinos. No embate entre utopia e desilusão, a peça faz ecoar uma pergunta urgente: o que resta da independência quando a liberdade ainda é promessa?

Dia 30/10, 20h
Teatro Martim Gonçalves
Duração: 1h30min
Classificação indicativa: livre
LEGENDAS EM PORTUGUÊS + TRADUÇÃO EM LIBRAS
Ingresso: R$ 30,00 e R$ 15,00– Para comprar ingresso, CLIQUE AQUI

Para saber sobre os ingressos de toda a programação, entre AQUI

FICHA TÉCNICA

Direção: Freddy Sabimbona
Texto inspirado em Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon
Dramaturgia: Ali K. Ouédraogo (Doueslik)
Elenco: Ali K. Ouédraogo (Doueslik), Noël Minougou
Música: Edu Meireles
Produção: Les Récréâtrales-ELAN
Produção Executiva Europa: Association Sens Interdits
Ali K. Ouédraogo

Foco Sens Interdits no Brasil

Criada em Lyon em 2009, a Bienal Internacional de Teatro Sens Interdits é um espaço de encontro entre arte, política e humanidade. Dedicada a temas como memória, identidade e resistência, a bienal reúne artistas de todo o mundo que transformam suas lutas em linguagem cênica. Em cada edição, o público é convidado a cruzar fronteiras — de idioma, estética e pensamento — para escutar vozes que revelam as contradições do nosso tempo. Como parte da Temporada França–Brasil 2025, o Sens Interdits se une ao FIAC – Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia para apresentar quatro espetáculos vindos de Camarões, Burkina Faso e França, abordando descolonização, desigualdade e liberdade. As apresentações se estendem também ao FETEAG (Caruaru e Recife) e ao MIAC (Porto Alegre), com masterclasses e encontros que ampliam o diálogo entre artistas e públicos. Um verdadeiro intercâmbio de ideias e emoções, em que o teatro se afirma como território de resistência e esperança. A montagem “Les Sans…” (“Os sem…”), de Ali K. Ouedraogo, faz parte desse intercâmbio.

A peça, por Freddy Sabimbona (diretor)
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A peça, por Freddy Sabimbona (diretor)

“Les Sens…”, escrita por Ali Kiswinsida Ouédraogo, inspirada no livro “Os Condenados da Terra”, de Frantz Fanon, é uma peça extremamente importante para o nosso tempo, mas, acima de tudo, um tema premente no noticiário diário da maioria dos países africanos. Ela descreve a realidade nua e crua das nossas sociedades contemporâneas e revela, com sarcasmo e ironia, a hipocrisia que prevalece nas nossas instituições, nas nossas elites, nos nossos concidadãos e nos nossos governos.

A peça é a história de Tiibo e Franck. Dois jovens amigos que partilharam a mesma luta, nomeadamente o despertar da consciência dos povos oprimidos por maior liberdade e igualdade entre os cidadãos. Infelizmente, quando se trava este tipo de luta, especialmente em países onde a ditadura é tida como modelo, somos rapidamente “taxados”, “rotulados” como uma ameaça, um perigo potencial a ser eliminado imediatamente. A história de Tiibo e Franck assemelha-se a tantas histórias deste continente ferido que é o nosso amado. É a personificação da memória, das muitas memórias que lutaram com suas vidas para abalar a ordem estabelecida, para dar grandeza e esplendor ao destino de uma nação inteira: Thomas Sankara, Norbert Zongo, Nelson Mandela, Steve Biko, Patrice Lumumba… para citar apenas alguns, eles aparecem implicitamente como fantasmas benevolentes entre as linhas do texto.

Para não esquecer. Para nunca esquecer. Tiibo e Franck se dirigem ao espectador em uma linguagem que combina um estilo didático, lírico, poético e cru, que nos mergulha na grande história como a conhecemos em Os Condenados da Terra e na pequena história que une os dois protagonistas. É uma justa verbal no sentido verdadeiro da palavra, cada um tentando convencer o outro da validade de seus pensamentos sobre o mundo atual. Um cínico, o outro utópico.

Esta peça, que descreve as realidades africanas com uma letra sublime, deve ser encenada por atores talentosos, que saibam manejar as palavras e que tenham uma forte presença cênica devido ao texto, que oscila entre lições de história e demandas cívicas. Após dez dias de ensaios, não tenho dúvidas de que os encontrei em Noël Minougou e Ali K.
Ouédraogo.

O realismo de muitas cenas deve manter um diálogo contínuo entre os personagens e o público, como a história se passa em um bar. O trabalho criativo deve ser baseado no ritmo para que o público, testemunhando esse debate de ideias, possa realmente se sentir parte da conversa, mesmo que isso signifique tomar partido. O resto deve ser o mais simples possível, sem cenários fantasiosos: um bar, um maquis onde as pessoas costumam ir. A ideia seria até que, em outro cenário, a peça pudesse ser encenada in situ, em um bar, sem nenhum artifício, como a escrita de Ali. A iluminação estará lá para indicar as diferentes emoções transmitidas pelos atores, mas também para evocar o passado e o presente dos personagens que se reencontram 10 anos depois. A música tocada por Patrick Kabré será um elemento essencial que acompanhará o texto em vários momentos. Patrick a comporá e a interpretará no palco como se estivesse em um bar com palco, permitindo que os artistas se expressem. Ele também criará sons e efeitos sonoros como evocações sonoras integradas ao diálogo entre os dois atores. Les Sans… é uma peça que descreve com beleza e humor o cinismo do nosso tempo, que se tornou uma forma de pensar. Um pensamento fatal, um pensamento resignado.

Freddy Sabimbona

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Ali K. Ouédraogo – Burkina Faso – Dramaturgia e auação
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Ali K. Ouédraogo – Burkina Faso – Dramaturgia e auação

Nascido em 30 de dezembro de 1984, em Burkina Faso, Ali Kiswinsida Ouédraogo é poeta, ator e dramaturgo. Ele treinou com Aristide Tarnagda, Moïse Touré, Alima Nikiema, Ildevert Meda, Antoine Jaccoud, Denis Maillefer e Jo Stromcren. Atuou sob a direção de Moïse Touré, Joseph Kabore, Paul Zoungrana, Aristide Tarnagda, Fargasse Assandé e Luca Fusi. A sua experiência de palco como poeta e ator de slam, tanto no Burkina Faso como internacionalmente, é extensa.

Em setembro de 2013, foi finalista dos Jogos da Francofonia em Nice. Sua poesia slam é considerada uma revolução na expressão popular, uma intersecção entre a caneta e a performance no palco. Ali Kiswinsida Ouédraogo, também conhecido como Doueslik, o Fantástico, o homem mais simpático da República, descreve-se como um artista da expressão oral e escrita. Seu slam é uma mistura de instrumentos musicais tradicionais e modernos. Sua escrita elaborada descreve um mundo às vezes sombrio, sempre pungente e vívido, e nos oferece uma visão realista de nossa sociedade. Os textos de Doueslik são imbuídos de grande humanidade. Alguns foram apresentados a Christian Schiaretti, do TNP em Villeurbanne, por Moïse Touré para que o trabalho pudesse começar. Ele é o autor dos textos 3.10 puissance 3 apocalypse (2008), Passeport (2011) e Hors place (2013), dirigidos por Laurence Grattaroly – companhia Kaléodoscope em Grenoble. Ele foi coautor de Innocent em 2013, ao lado de Karine Delmas, Charles Compagnie e Damien Ennebeck. Como ator, destacou-se pela direção de Moïse Touré em “Senghor notre contemporain” (estreou no Senegal em 2014) e por Aristide Tarnagda em “Baabou Roi”, de Wole Soyinka (estreou no CITO, Ouagadougou, em junho de 2016). É poeta de slam no projeto germano-burkinabe “Aller et Retour”, produzido pela associação Hajusom em coprodução com o Instituto Goethe de Ouagadougou (estreou no Espace Culturel Gambidi, Ouagadougou, em janeiro de 2017).

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Freddy Sabimbona – Burundi – Diretor
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Freddy Sabimbona – Burundi – Diretor

Freddy Sabimbona participou de diversas comédias de Patrice Faye: “The Shots” (2004), “The Hutsis” (2005), “The Strangler of Kiriri” (2006), e em “The Responsible Young Man Abstains” (2007) e “The Return of the Responsible Young Man Who Abstains” (2008), do mesmo autor, ambos dirigidos por ele. Incentivado pela conquista do primeiro prêmio no concurso de roteiro de 2007, em 2009 ofereceu à sua trupe duas peças curtas: “Double or Quit”, sobre o futuro “bloqueado” de seus jovens contemporâneos em uma rígida sociedade burundinesa, e “Honey, It’s Not What You Think It Is”, sobre as dores do ciúme. No mesmo ano, durante as duas semanas do “Express Yourself!” “, ele assume a biblioteca e os espaços do Centro Cultural de Bujumbura com “Open Your Ears!”, uma criação original sobre liberdade de expressão. Ele também filmou vários comerciais, assim como o papel de um jornalista em Journal d’un coopérant, o longa-metragem do canadense Robert Morin (2009), e o papel do “homem em treinamento” em Nawewe, de Ivan Goldschmidt (2009). Este curta-metragem recebeu o prêmio de Melhor do Público na Bélgica e foi recentemente indicado ao Oscar.

Ele também estrelou dois curtas-metragens em 2012, “O Sexto Mandamento”, de Francine Niyonsaba, e “Bem-vindo ao Lar”, de Joseph Ndayisenga, em 2013. Ele recebeu o prêmio de Melhor Ator por este último curta-metragem no Festival Internacional Audiovisual do Burundi (Festicab). “Heartbreak”, uma das criações mais recentes da trupe, foi apresentada em vários países da África Oriental, incluindo a República Democrática do Congo, Etiópia, Uganda e Ruanda.

Como diretor artístico, ele organizou recentemente o segundo teatro internacional festival no Burundi, intitulado “Buja sans tabou” (Buja sem Tabu), em março de 2016. Sua última criação, Kebab de Gianina Carbunariu, está atualmente em turnê pela região dos Grandes Lagos.

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Noël Minougou – Burkina Faso - Ator
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Noël Minougou – Burkina Faso - Ator

Nascido em 24 de dezembro de 1980, filho de pai burkinabe e mãe marfinense, Noël Minougou é ator, escritor e diretor. Iniciou sua formação em 2003 com a trupe “Théâtre de la Fraternité” do professor Jean-Pierre Guingané, com quem passou anos explorando técnicas de atuação, dramaturgia e direção. Participou também de diversos workshops de formação profissional com formadores nacionais e internacionais. Em 2007, ingressou na associação Carrefour International de Théâtre (CITO) em Ouagadougou, da qual permanece membro. Em 2009, fundou a Compagnie Le Ruminant e liderou diversos projetos, incluindo a Jazzy-Lecture, que revisita uma obra literária africana a cada dois ou três meses, e o (CIFED) Case d’Initiation et de Formation à l’Ecriture Dramatique (Iniciação e Treinamento em Escrita Dramática), realizado todo mês de agosto.

 

Noël Minougou ganhou o Prêmio LOMPOLO 2014 de Melhor Comediante do Ano em Burkina Faso na cerimônia do LOMPOLO. Como ator, participou de inúmeras produções sob a direção de Roger Nidegger, Paul Zoungrana, Ildevert Meda, Alougbine, Prosper Kompaoré e Dieudonné Niangouna. Ele também é roteirista e diretor de Marathon Man (2015) e Cons d’Hommes (2014).

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críticas e comentários
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críticas e comentários

TRECHOS DA IMPRENSA

“A inteligência da produção de Freddy Sabimbona reside precisamente em concentrar o discurso em torno de uma cerveja e de uma amizade que o tempo e a separação dividiram em duas vozes diferentes. […]” – I/O ​​Gazette, Marie Sorbier, 24 de outubro de 2019

“Ali K. Ouedraogo e Noël Minougou estão magníficos, e sua presença marcante mantém o público na ponta da cadeira durante todo o espetáculo. A produção de Freddy Sabimbona apresenta, com elegância e sensibilidade, este poderoso texto de Ali K. Ouedraogo […]” – Midi Libre, 18 de outubro de 2019,

“Um espetáculo que cativa, desafia, assim como surpreendeu o público durante a apresentação inaugural de Les Récréatrales. […]” – Thau info – outubro de 2019

“Apresentada ao público no sábado, a peça inaugural das Récréatrales, intitulada “Os Sem”, surpreendeu o público. Nesta peça poderosa e rebelde, Thibault e Franck são dois ex-companheiros de armas que se reencontram após 10 anos de separação. Mas enquanto Franck, retornando do exílio, permanece rebelde, Thibault lida com o sistema: um presidente autocrático, corrupção moral e financeira. Os dois homens se confrontarão, o justo e o resignado. “Os Sem…”, uma peça inspirada em “Os Condenados da Terra”, de Frantz Fanon, não poderia ter sido uma maneira melhor de inaugurar esta 9ª edição das Récréatrâles de Ouagadougou, realizada sob o tema simbólico de “sair das sombras”. Seu autor, Ali Ouedraogo, ficou impressionado com a relevância das palavras de Frantz Fanon há 65 anos. “Pensei que o que ele criticou ainda é relevante hoje”, explica. “A relação entre o povo, o povo comum e a burguesia que nos governa é a mesma que a relação entre o colonizador e o colonizado.”

Trecho de matéria publicada pela rádio francesa RFI

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