A verdade vencerá / La vérité vaincra

Gilles Pastor / KastôrAgile, com apoio do Festival Sens Interdits (Lyon – FR)

Em janeiro de 2018, o Brasil assistiu a um dos capítulos mais controversos de sua história recente: o julgamento e a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado sem provas em um processo que dividiu o país. Enquanto multidões tomavam as ruas em defesa do líder popular, em São Paulo, a editora Ivana Jinkins iniciava uma série de conversas com Lula que dariam origem ao livro A Verdade Vencerá (Editora Boitempo). A partir desse encontro, nasce a palestra-performance francesa “A Verdade Vencerá”, uma criação que atravessa política, memória e afetos, entrelaçando a voz de um homem e a história de um povo. Em cena, o espetáculo reflete sobre amor, futebol, livros e democracia, transformando um episódio de perseguição em um manifesto poético pela justiça social.

Dia 31/10, 20h
Teatro Martim Gonçalves – Escola de Teatro (UFBA)
Duração: 1h05min
Classificação indicativa: livre
LEGENDAS EM PORTUGUÊS + TRADUÇÃO EM LIBRAS
Ingresso: R$ 30,00 e R$ 15,00 – Para comprar, CLIQUE AQUI

Para saber sobre os ingressos de toda a programação, entre AQUI

FICHA TÉCNICA

Dramaturgia: Baseada em “A verdade vencerá” – Luiz Inácio Lula da Silva / Entrevistas 2018 – 2019 (Edição Boitempo, São Paulo, Brasil) – Ivana Jinkings, com colaboração de Gilberto Maringoni, Juca Kfouri e Maria Inês Nassif /Tradução do português: Pedro Afonso, Antoine Chareyre e Élodie Dupau (Le Temps des Cerises, editora parisiense)
Adaptação, direção, iluminação e som: Gilles Pastor
Elenco: Jean-Philippe Salério e Alizée Bingöllü
Colaboração artística: Catherine Bouchetal
Produção administrativa: Guilhaine Albert
Produção: Festival Internacional Sens Interdits / Théâtre de l’Urgence, França Brasil Ano 2025, FIAC Bahia e Festival FETEAG

Foco Sens Interdits no Brasil

Criada em Lyon em 2009, a Bienal Internacional de Teatro Sens Interdits é um espaço de encontro entre arte, política e humanidade. Dedicada a temas como memória, identidade e resistência, a bienal reúne artistas de todo o mundo que transformam suas lutas em linguagem cênica. Em cada edição, o público é convidado a cruzar fronteiras — de idioma, estética e pensamento — para escutar vozes que revelam as contradições do nosso tempo. Como parte da Temporada França–Brasil 2025, o Sens Interdits se une ao FIAC – Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia para apresentar quatro espetáculos vindos de Camarões, Burkina Faso e França, abordando descolonização, desigualdade e liberdade. As apresentações se estendem também ao FETEAG (Caruaru e Recife) e ao MIAC (Porto Alegre), com masterclasses e encontros que ampliam o diálogo entre artistas e públicos. Um verdadeiro intercâmbio de ideias e emoções, em que o teatro se afirma como território de resistência e esperança. A montagem “A Verdade vencerá” faz parte desse intercâmbio e é uma adaptação do livro A Verdade Vencerá, de Luiz Inácio Lula da Silva (Temps des Cerises, 2020) Edição original: A verdade vencerá: o povo sabe por que me condenam (Boitempo, 2019). Idealizada pelo diretor Gilles Pastor (companhia teatral KastôrAgile), a peça estreou em 2024 com apoio do Festival Sens Interdits.

Sinopse grande
×
Sinopse grande

No dia 24 de janeiro de 2018, em Porto Alegre, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve julgado seu recurso à condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, proferida pelo juiz federal Sergio Moro. Num jogo de cartas marcadas, três desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRF-4) confirmaram a sentença e ampliaram a pena anterior. Nenhuma prova foi apresentada. Do lado de fora, dezenas de milhares de pessoas, na maioria trabalhadores e estudantes, manifestavam apoio ao mais popular líder político que a classe trabalhadora brasileira produziu.

Em 31 de janeiro de 2018, a editora brasileira Ivana Jinkins conversa com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu escritório em São Paulo. Ela se oferece para coletar seu depoimento para escrever um livro. Juntos, eles discutem o julgamento contra ele, sua vida e seus livros. Essas entrevistas ocorreram em um momento crucial da história de Lula, enquanto o país aguardava a decisão do Judiciário sobre sua prisão. Condenado e preso injustamente e sem provas, Lula foi afastado da arena política. O livro narra o período de sua luta.

A palestra-performance “La Vérité Vaincra” (“A Verdade Vencerá”) investiga o encontro entre a editora e o atual presidente do Brasil sobre o amor de um político ao seu país, o futebol, os livros, o trabalho em equipe. A montagem estreou em Lyon, no Théâtre de lLélysée, em setembro de 2024, com apoio do Festival Sens Interdits, adaptando o livro escrito a partir de entrevistas com o atual presidente do Brasil. A peça explora a luta de Lula contra a perseguição política, a ascensão da extrema direita e a luta pela democracia no Brasil, refletindo sobre os perigos das tendências autoritárias e a importância de uma sociedade justa e inclusiva. Ainda relevante hoje, no Brasil e na França.

Giles Pasteur

+
o diretor
×
o diretor

Gilles Pastor é diretor, cenógrafo, autor e ator. Em 2002, fundou a KastôrAgile, companhia teatral especializada em artes visuais e cênicas. Em 2007, foi laureado com o prêmio Villa Medici Hors les Murs / Institut Français / Ministério das Relações Exteriores (Salvador, Brasil). Realizou residências em Lyon, no Centro de Pesquisa Contemporânea da Villa Gillet e no Laboratório de Criação Artística Subsistances.

Affabulazione, de Pier Paolo Pasolini (estreou em 2014), e Édipo Rei, baseado em Sófocles (estreou em 2017), foram tema de residências criativas no Théâtre national Populaire – TNP, em Villeurbanne. Os dois espetáculos formam um díptico apresentado no outono de 2017.

Dada a complexidade da obra de Pastor, que decorre de seus elementos autobiográficos, sua produção teatral, que mistura gêneros, não pode ser simplesmente atribuída a uma história pessoal. Ele desenterra incansavelmente histórias de vida e morte, dos vivos e dos espíritos, de amor, desencanto e solidão, extraindo delas fragmentos íntimos.

Com entusiasmo inabalável, ele nos guia por essas histórias pungentes. Em tudo o que escreve, dirige ou encena, ele tem a arte de explorar nossas tristezas, de revelá-las como elas são, de permitir que encontrem seu caminho através da noite. E lá cintila, como uma ausência, uma certa verdade sobre os outros e sobre nós mesmos, ao mesmo tempo perturbadora e estimulante por um longo tempo.

Sylvia Botellarelles

Siga Gilles Pastor no Instagram: https://www.instagram.com/gilles.pastor/

+
Nota da primeira edição do livro
×
Nota da primeira edição do livro

Ivana Jinkings

No dia 24 de janeiro de 2018, em Porto Alegre, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve julgado seu recurso à condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, proferida pelo juiz federal Sergio Moro. Num jogo de cartas marcadas, três desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRF-4) confirmaram a sentença e ampliaram a pena anterior. Nenhuma prova foi apresentada. Do lado de fora, dezenas de milhares de pessoas, na maioria trabalhadores e estudantes, manifestavam apoio ao mais popular líder político que a classe trabalhadora brasileira produziu.

Diante desse processo de destruição das instituições políticas e jurídicas brasileiras e de ameaça à democracia, decidimos publicar este livro, que, de certa forma, sintetiza nossa razão de existir. A Boitempo é uma editora independente – não faz parte de nenhum grande grupo empresarial nem é vinculada a partido político, movimento social ou instituição religiosa – e tem como única fonte de renda os livros que publica. Em duas décadas de existência, buscamos articular as necessidades de sobrevivência com uma linha editorial comprometida com o pensamento crítico. Não publicamos obras de autoajuda, livros didáticos nem fast-food literário. Não buscamos confortar ilusoriamente as pessoas. Tornamo-nos reconhecidos por oferecer aos leitores edições bem-cuidadas de obras de alta qualidade, escritas por autores progressistas das mais diversas tendências – muitas delas com críticas consistentes a posições e à gestão do PT no poder.

Não apoiamos – como empresa – este ou aquele candidato. Mas temos consciência de que o Brasil vive uma escalada de intolerância e preconceito, potencializada pelo golpe de abril de 2016. A ruptura institucional tem agora uma pedra angular, a eventual prisão do ex-presidente Lula. Independentemente de concordar ou não com sua personalidade política ou sua conduta no governo, entendemos que a perseguição a ele transcende em muito uma questão individual ou partidária. Diante de uma das raras lideranças brasileiras de porte global, a Justiça brasileira vem amesquinhando seu papel de guardiã do Estado de direito e da Constituição e contribuindo para o estreitamento do espaço democrático.

Encarcerar Lula – uma possibilidade real neste momento – significa lançar o país em uma aventura autoritária que envolve perdas de direitos da população – especialmente dos mais pobres –, concentração de renda, regressão econômica e aviltamento da soberania nacional. Com essa convicção profundamente democrática e cidadã, lançamos este livro também para dizer que não queremos o Brasil projetado pelas forças obscurantistas que tomaram o governo de assalto. É nosso esforço para a mudança e um ato de resistência cultural.

• • •

Na quarta-feira, 31 de janeiro deste ano, fui conversar com Lula em seu escritório, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Recebeu-me pontualmente para uma conversa que deveria durar trinta minutos, mas se prolongou por duas horas e meia. Falamos de tudo: do processo movido contra ele, da vida, de livros e, claro, de minha proposta de colher dele um depoimento que se tornasse livro. Pediu-me um tempo para pensar e conversar com seus advogados. Dois dias depois, telefonou e disse: “Vamos fazer!”. A partir daí, criou-se uma força-tarefa para a montagem da edição, incorporando autores dos textos complementares e a equipe de entrevistadores.

Nos encontros que se seguiram, o ex-presidente mostrou-se aberto e não evitou responder nenhuma pergunta – talvez nunca tenha havido uma entrevista em que se desnudasse tanto. O resultado, os leitores poderão conferir no volume que ora apresentamos.

Alguns agradecimentos são necessários. Aos entrevistadores – Gilberto Maringoni, Juca Kfouri e Maria Inês Nassif –, companheiros solidários desta curta e intensa jornada; a José Chrispiniano, Marco Aurélio Ribeiro, Ricardo Stuckert, Paulo Okamotto e Claudia Troiano, do Instituto Lula, que se desdobraram para viabilizar os encontros e as gravações; aos autores dos demais textos que compõem este volume – Luis Fernando Verissimo, Luis Felipe Miguel, Eric Nepomuceno, Rafael Valim e Luiz Felipe de Alencastro –, colaborações essenciais e feitas em tempo recorde; a Mauro Lopes, responsável pela hercúlea tarefa de transcrever (com Murilo Machado) e editar a entrevista; a Frei Chico e Larissa da Silva, que nos cederam as fotos do arquivo da família; e, finalmente, agradeço à equipe da Boitempo. Não fosse a dedicação desse time sem igual, este livro não estaria pronto neste momento dramático da vida nacional, que exige mais que nunca a unidade das forças progressistas.

São Paulo, 8 de março de 2018

+
+
Acessar o conteúdo