De peito aberto / À cœur ouvert – LEITURA CÊNICA

Eric Delphin Kwégoué e Flânoir Bruno (Camarões e Brasil)

Inspirado na história real do assassinato do jornalista camaronês Martinez Zongo, “De Peito Aberto” transforma a luta pela liberdade de imprensa em uma história política pulsante. O jornalista Santiago é morto após denunciar um poderoso bilionário ligado ao regime. Sua morte desencadeia uma rede de resistência: uma blogueira convoca multidões pelas redes, transformando dor em mobilização. Entre suspense e denúncia, o texto do premiado Eric Delphin Kwégoué — vencedor do Prêmio RFI Théâtre 2023 — expõe a frágil fronteira entre poder e verdade. A leitura encenada, com direção de Flânoir Bruno (também tradutor do texto para o português), integra a Edição Francófona do Projeto de Internacionalização de Dramaturgias, reunindo intérpretes baianos(as) para a leitura dramática que será realizada durante o lançamento do livro homônimo no FIAC Bahia.

Dia 30/10, às 16h
Teatro Gamboa
Duração: 1h15min
Classificação indicativa: Livre
TRADUÇÃO EM LIBRAS
Ingresso: Espetáculo gratuito, com convites distribuídos no dia e local da apresentação, uma hora antes do seu início.

Para saber sobre os ingressos de toda a programação, entre AQUI

FICHA TÉCNICA

Texto: Eric Delphin Kwégoué
Tradução e direção: Flânoir Bruno
Elenco: Mônica Santana, Raimundo Moura, Vado Souza, Fernando Santana, Taíse Paim, Sangotumbi
Músico convidado: Rick Carvalho
Idealização, direção artística e de produção: Márcia Dias
Realização: A Edição Francófona do Projeto de Internacionalização de Dramaturgias é realizada pela Buenos Dias. Nesta edição, dedicada à Temporada França-Brasil 2025, a Embaixada da França no Brasil, o Institut Français e o SESC são parceiros fundamentais. A Edição Francófona inclui quatro obras publicadas pela editora SENAC Rio, sob o selo Casa SESC Editorial.

Projeto de Internacionalização de Dramaturgias

Idealizado por Márcia Dias, diretora da Buenos Dias, o Projeto de Internacionalização de Dramaturgias promove o intercâmbio entre criadores do Brasil e do mundo, ampliando o alcance da escrita teatral contemporânea. Em parceria com o Núcleo dos Festivais Internacionais de Artes Cênicas do Brasil, a iniciativa ultrapassa fronteiras geográficas e linguísticas, conectando dramaturgos, tradutores e encenadores em processos colaborativos. Nesta Edição Francófona, dedicada à Temporada França–Brasil 2025, o projeto conta com o apoio internacional do Institut Français e da Embaixada da França, e o apoio cultural do SESC Rio. Ele inclui quatro obras publicadas pela editora SENAC Rio, sob o selo Casa SESC Editorial, reunindo obras de autores afrodescendentes — Astrid Bayiha, Eric Delphin Kwégoué, Dieudonné Niangouna e Penda Diouf — traduzidas e reinterpretadas por artistas brasileiros. Com residências, encontros e publicações bilíngues, o projeto reafirma a tradução como ato político e poético — um gesto de escuta e criação que transforma palavras estrangeiras em novas formas de pertencimento e liberdade artística. A obra de Eric Delphin Kwégoué, traduzida para o português pelo gaúcho Flânoir Bruno, ganha leitura cênica no FIAC Bahia dirigida pelo próprio Bruno, com elenco formado por artistas e coletivos baianos. O evento contará também com a presença do dramaturgo, que vem a Salvador para o lançamento do seu livro homônimo, no dia e local da leitura cênica.

Personagens
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Personagens

Personagens:

Paulo Alan
Maria Agnes, sua esposa
Neemias, seu filho
Eshu, o faz-tudo
Comandante
Ninja
A influencer

A influencer:

Conectem-se queridos e queridas seguidoras
queridos inscritos
conectem-se rapidamente lá fora está cheirando a merda
irmãos e irmãs bem-vindos
ao meu primeiro podcast do dia
em homenagem ao filme de terror que virou
nosso próprio país
cinema 100% local
uma história sangrenta fora de série
proibida para menores de 18 anos
proibida às almas santas de domingo
desde o monitoramento e sequestro do nosso colega Santiago
eu estou evitando falar
sobre o risco de ver esses charlatões me enterrarem sob uma lona
me difamando como uma conspiradora
vocês sabem muito bem que eu não sou uma conspiradora
esse regime me detesta infinitamente pela minha posição
eu disse a eles que não me calarei
enquanto eles fizerem prosperar as desigualdades e injustiças
a corrupção e os assassinatos
eles me acusam de falastrona
eu admito que sou uma falastrona
é preciso de alto-falantes
em uma sociedade à mercê de todos os tipos de violência
privações de direito e confiscações de liberdade
que eles saibam que
eles não nos manterão para sempre nesse caos
as coisas estão mudando
eles não vão de modo algum impedir todo um povo
de se expressar
em que mundo estamos?

(continua…)

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Nota do autor
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Nota do autor

Em De peito aberto, a fala de certos personagens – a exemplo de Paulo Alan e de A influencer – apresenta-se sem pontuação, pois, neste ponto a língua é tratada como um espaço de invenção dos possíveis, um terreno da originalidade, ou da força do acaso linguístico, do tateamento experimental, do arcaísmo. O original se impõe, fere e derruba as linhas. Há uma escolha deliberada de fazer do idioma uma ilha de descobertas nas bocas desses personagens, de liberdade; onde a palavra se abre, se desarticula e se submete a uma forte prova de tortura e contorção. No caso da personagem A influencer, a pontuação é substituída pela musicalidade da língua francesa e pela busca por uma poética conectada com a urgência da situação. No caso do Paulo Alan, é a descrição e a narrativa que primam sobre a pontuação. Os subtextos são apenas compostos por imagens dolorosas e traumatizantes. Aqui, a não pontuação explica o caos mental do personagem. Além dessas indicações, a não pontuação é também uma ferramenta que o autor oferece à atriz e ao ator, arquitetos dos personagens, para permitir livremente a criação, pontuando segundo os próprios ritmos, colocando fôlego, dinâmica para que esses personagens complexos possam carregar suas marcas. Existe nesses dois personagens uma tensão dramática particular, razão pela qual a construção textual deixa livre para cada um interpretar segundo o próprio ritmo cardíaco, a própria percepção sensorial e emocional. Essa é a pesquisa de um estilo de escrita que se conecta com o universo completamente alucinante desse thriller teatral.

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Sobre a tradução brasileira
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Sobre a tradução brasileira

Meu primeiro sentimento de conexão com o Projeto de Internacionalização de Dramaturgias se deu pelo fato de que havia nele uma ponte afrodiaspórica e, sobretudo, um intercâmbio artístico muito próspero. Tanto a arte quanto a linguagem são ferramentas de conexão entre os mundos e entre os corpos que muitas vezes estão distantes fisicamente, mas, no campo das ideias, do sentir e dos olhares, se reconhecem de muito perto.

A língua francesa, para mim, sempre simbolizou essa ponte, um objeto que me conecta e me possibilita ter intimidade com territórios e olhares afrodiaspóricos. Por meio dessa ferramenta, me sinto perto desses lugares e, assim, há um reconhecimento mútuo tão forte e tão puro, seja onde for, no Caribe afrofrancófono, na Europa ou na África, que é tão diversa em suas francofonias.

De peito aberto é um olhar de um artista contemporâneo sobre uma faceta muito palpável e profunda de um Camarões atual, é um culto à palavra e ao coração. Esse olhar é compartilhado pela estética de uma escrita muito original. Éric-Delphin Kwégoué, autor da peça, utiliza como recurso em alguns monólogos a falta de pontuação, para que o leitor tenha liberdade na relação com o texto e possa colocar “o próprio ritmo cardíaco natural”.

Enquanto eu ouvia o autor, também ia refletindo sobre a história da peça, sobre o que pode significar ser um jornalista cumprindo seu trabalho de forma ética sob o regime de um governo ditatorial. Pensei também na escolha da peça em forjar esse culto à palavra, à comunicação como um eixo nas figuras de alguns personagens: Eshu, Neemias, A influencer e o próprio jornalista (Paulo Alan). Isso por si só, este culto à palavra com ação salvadora de uma pátria, é de uma beleza muito grande.

Por fim, agradeço a Márcia Dias, idealizadora do Projeto de Internacionalização de Dramaturgias, o convite. Também reafirmo que a importância dessa experiência se dá nessa troca afrodiaspórica proporcionada pela ferramenta desse idioma, que como todas as línguas diaspóricas, abre janelas no espaço-tempo que criam reencontros possibilitadores do florescer.

Flânoir Bruno

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Éric Delphin Kwégoué
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Éric Delphin Kwégoué

Éric Delphin Kwégoué nasceu em 1977 em Bana, no departamento de Haut-Kam, região dos Camarões Ocidentais. Em 2022, ele iniciou sua carreira teatral após dois anos de treinamento em arte dramática no Centro Juvenil e Cultural de Douala (MJC). Ele se formou como diretor com André Bang, Maître Mwambayi, Catherine Boskovitch e Carlo Boso. Em uma década de prática, atuou em peças como La mort d’Alexandre Suttu, de Dumitru Crudu, com direção de Benoit Vitse, Rêve de fou, adaptação de uma palestra de Sony Labou Tansi, com direção de Guillaume Ekoumé, e apresentada no Festival Internacional de Sibui, na Romênia, e em várias cidades da África. Também se apresentou no Festival de Avignon de 2013.

Éric Delphin Kwégoué é ator, escritor e diretor, além de especialista artístico da OIF no CITF. Começou a escrever através do rap, depois da poesia, antes de se dedicar ao teatro e, mais tarde, ao teatro documental. Desde sua primeira peça, L’ombre de mon propre vampire, ele contrapôs situações pessoais a crises sociais, humanas e políticas. Autor de cerca de vinte peças, é o vencedor do Prêmio RFI Théâtre 2023.

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Flânoir Bruno
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Flânoir Bruno

Nascido em Porto Alegre (RS) é um dos artistas fundadores do grupo Pretagô (2014). Flânoir é um artista da performance cênica, pesquisador das manifestações artísticas afro-francófonas e afro-diaspóricas. Ao longo de sua trajetória vem conectando os temas da migração contemporânea e dos processos afro-diaspóricos em uma pesquisa viva que encontra suas respostas na arte e na educação. Com sua performance solo intitulada “Limbo” (2019) , circulou por diversos teatros nacionais com destaque para SESC POMPEIA (SP); CHÃO (SLZ); SÉRGIO PORTO (RJ); Como arte educador formou centenas de artistas na escola técnica de arte e tecnologia Spectaculu (RJ), durante seu período lecionando nas disciplinas de Performance Cênica e Olhar Estético.

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Internacionalização de Dramaturgias – Edição Francófona
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Internacionalização de Dramaturgias – Edição Francófona

Internacionalização de Dramaturgias – Edição Francófona

O projeto de Internacionalização de Dramaturgias idealizado por Márcia Dias, diretora da Buenos Dias, tem como objetivo promover a difusão da dramaturgia contemporânea brasileira e internacional. Com a parceria do Núcleo dos Festivais Internacionais de Artes Cênicas do Brasil, o projeto busca levar textos teatrais além das fronteiras geográficas, linguísticas e estéticas. A iniciativa incentiva a criação e a circulação de obras teatrais, não apenas por meio de traduções, mas também através de encontros e processos colaborativos entre artistas, diretores e dramaturgos de diferentes países.

Nesta edição, dedicada à Temporada França-Brasil 2025, a Embaixada da França no Brasil, o Institut Français, o SESC e o SENAC são parceiros fundamentais. A Edição Francófona inclui quatro obras publicadas pelas editoras SENAC e Casa SESC Editorial, dos dramaturgos afrodescendentes – Astrid Bayiha, Eric Delphin Kwégoué, Dieudonné Niangouna e Penda Diouf –, traduzidas e encenadas por artistas brasileiros – Ana Laura, Bruno Flânoir, o duo Renato Farias & Thiago Hypolito e Vanessa Pascale, ampliando a biblioteca do projeto e oferecendo novos textos para criadores de língua portuguesa e promovendo

Além de estar inserida na Temporada França-Brasil 2025, esta edição traz outro diferencial: a integração com o SESC Pulsar. Um dos artistas selecionados pelo programa assina a tradução de um dos textos francófonos, e a obra escolhida pelo edital será publicada em versão bilíngue, em português e francês, ampliando ainda mais o alcance do projeto e fortalecendo o diálogo entre as duas línguas.

O projeto inclui residências artísticas e encontros entre encenadores(as) brasileiros(as), dramaturgos(as) francófonos(as) e companhias de teatro locais. Esses encontros visam compartilhar o processo criativo, culminando na apresentação de leituras de textos teatrais ao público e no lançamento das publicações durante os Festivais do Núcleo dos Festivais Internacionais de Artes Cênicas do Brasil, em 2025.

Cada etapa do projeto reforça seu compromisso com a internacionalização da dramaturgia, utilizando a tradução como um meio de estabelecer conexões e construir pontes culturais. A tradução, ao acolher palavras estrangeiras, transforma-as em algo familiar e fértil, capaz de gerar novas paisagens criativas.

Que esta Edição Francófona, construída especialmente para a Temporada França-Brasil 2025, siga multiplicando encontros entre culturas e públicos, promovendo a troca de boas histórias e a criação de novas relações artísticas e culturais.

#internacionalizacaodedramaturgias #dramaturgiafrancofona #plataformabrac #teatro #dramaturgia #arte #cultura #anodafrancanobrasil

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Plataforma Brasileira de Artes Cênicas
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Plataforma Brasileira de Artes Cênicas

A plataforma Brasileira de Artes Cênicas foi criada para criar. Mecanismos, ideias, ações.

O desejo é ampliar o universo de alcance das produções artísticas brasileiras para muito além do seu entorno geográfico e estabelecer diálogos entre artistas, produtores e gestores de todo o mundo.

Ganhando cor, forma e espaço através de Márcia Dias, Paula de Renó e Felipe de Assis, num primeiro momento a BRAC vem trazendo projetos de artistas de outros países para o Brasil, sem esquecer de também levar o Brasil para o mundo. Nesse raciocínio, constrói relacionamentos e parcerias capazes de gerar derivações dessas próprias relações – e assim criar novos processos.

O projeto de Internacionalização de Dramaturgias funciona nessa lógica e representa hoje um foco importante de atuação da plataforma BRAC. É uma ação que a um só tempo articula tradução, edição, criação artística, intercâmbio, registro, reflexão e difusão. É também a primeira realização da plataforma para efetivar uma política de intercâmbio e de internacionalização das artes cênicas brasileiras.

De 2015 para cá, o projeto envolveu diferentes artistas brasileiros de teatro para promover um encontro entre encenadores, autores e tradutores, com textos fundamentais da rica produção contemporânea da Espanha, França, Holanda e Francófona. Importante ressaltar o apoio do Núcleo dos Festivais Internacionais de Artes Cênicas do Brasil nesse processo, que acolhe o lançamento, as leituras e residências artísticas dentro da programação de seus festivais.

Graças aos caminhos percorridos até aqui a plataforma BRAC ganha fôlego para criar agora esta interface, que compartilha o contexto no qual as obras foram escritas e encenadas, suas referências culturais, os perfis dos/as autores/as, o histórico de montagens e outros conteúdos relacionados a suas histórias.

Sabemos que esses elementos que contextualizam as criações são fundamentais para gerar interesse nas obras e seus/suas autores(as). Por isso, convidamos você a acessar todas as informações aqui reunidas (e no insta @plataformabrac) para, assim, criarmos juntes novos desdobramentos.

@plataformabrac https://www.instagram.com/plataformabrac/

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